Amar “apesar de”

Colocado em

O amor não é perfeito. Não é porque nós também não o somos. O amor não é todos os dias bonito, não é todos os dias atento, não é todos os dias paciente. Não é. E não é por isso que é menos amor, ou que não é amor.

Sempre que passamos fases mais atribuladas ou de maior distância nas nossas relações ouvimos as vozes todas do mundo dizer “Se não te faz feliz então tens de pensar se é isso que queres para a tua vida.” E então nós ficamos com aquela sensação de que se calhar aquilo que estamos a viver não é amor, que se calhar lá à frente a seguir à curva existe o verdadeiro amor, dos fogos de artifício e do Homem que diz tudo o que nós queremos ouvir. Não acredito nisso. Acredito que hoje em dia já ninguém está com paciência para lidar com as dificuldades e com os defeitos do outro. Porque se vende esta ideia dos dias sempre felizes, das pessoas sempre compreensivas. Não se contempla que o melhor dia de trabalho de um tenha sido o pior dia de trabalho do outro, não se contemplam as noites mal dormidas, os mal entendidos, não se contempla a vida que nem sempre nos dá só motivos para sorrir. É duro ficar. Há dias em que ficar é duro, há dias em que a outra pessoa não nos consegue ler e há dias em que somos nós os analfabetos. A pessoa que tu amas não é um desenho exacto feito à imagem da tua expectativa. Isso não existe.

O amor é ficar “apesar de”, é depois das complicações, das discussões, da vida estar mais pesada olhar para a outra pessoa e pensar “continua a valer a pena”. É ficar apesar dos defeitos, apesar das dificuldades, apesar da falta de tempo. É muitas vezes sentir que queremos nadar e já só temos um braço. Claro que existem situações em que o fim é inevitável, claro que existem relações altamente tóxicas das quais temos de nos conseguir libertar, mas estou a falar dos fins prematuros que acontecem porque nos andaram a vender uma ideia de amor que não é a real.

A vida complica-se, as pessoas crescem, e às vezes não recebemos tantas flores como gostávamos, não jantamos tantas vezes fora, não viajamos com tanta frequência ou nenhuma. Mas se prestarmos atenção o amor aparece noutras coisas, na minha vida tem sido assim. O amor às vezes fica com os miúdos e deixa-te dormir um bocadinho de manhã, às vezes olha para ti e diz que és bonita quando tu te sentes horrível, às vezes é aquele abraço sem motivo que se dá na cozinha, às vezes é só ouvir os teus desabafos e rir das tuas parvoíces. Ás vezes o amor é ver o filme que tu querias, é cozinhar o jantar, é aquecer-te quando te vais deitar mais tarde e ainda estás frio.

Quando fiz a canção a vida toda, eu não falei de um amor que me levou a andar de balão, que me pediu em casamento com um coro gospel ou que me levou a passear não sei onde. Falei de um amor do dia-a-dia, do amor das pessoas reais, que também falham, que também se cansam, que também erram e pedem desculpa. Esse é o amor em que eu acredito. No video que filmei em casa não se vê nenhuma imagem dos filmes em que o homem pinta o nosso nome em letras gigantes no chão ou de jantares à luz das velas. Vê-se uma familia, que vive as pequenas coisas.

Não existe nenhuma relação perfeita, juro. E às vezes leio comentários no meu Instagram que dizem : “relação perfeita”. Eu não vivo a relação perfeita, nem quero! Há dias em que me apetece esganar o Diogo e outros em que sou eu a insuportável, há dias em que embirramos com coisinhas de nada e discutimos porque ele quer uma coisa e eu quero outra. O que acontece também é que apesar de todas estas coisas, amamo-nos até ao osso.

O amor se se apaixonasse por ele próprio iria perceber a trabalheira que dá!

Deixo-vos com um bocadinho de uma canção que fiz que fala sobre isso mesmo :

“O amor às vezes não se entende,
Quanto mais custa mais se aprende
O amor às vezes não é bonito
O muito que vais e o tanto que fico

O amor às vezes não se entende
O muito que larga, o tanto que prende
O amor às vezes não é bonito
Mas o mundo é um lugar não feio… se tu não estás comigo”

  • Partilhar

4Comentários

  1. Joana says:

    Obrigado!!!! ❤

  2. Elodie Monteiro says:

    Tão verdade! Obrigada por este cantinho tão real.

  3. Luciana Lopes says:

    Amei, o Amor é mesmo isso…. 💙
    Revejo-me em tantas palavras!! Obrigada Carolina 😍😘😘

  4. Rita says:

    Parabéns Carolina, mais uma vez um post escrito soberbamente, incisivo e sobretudo tão real. Convido-a a ler a última entrevista a Eduardo Lourenço, filósofo, no jornal Público. Li -a ontem, fez-me refletir e partilhar a incompreensão que também manifesto relativamente ao culto da imagem, dos facebooks (que não tenho) sem se viver a vida realmente…Hoje leio-o este post (de tão bem escrito e reflexivo merecia um nome que não “post”) e associo-o à entrevista com o ilustre Eduardo Lourenço. É que a Carolina consegue, de outra maneira, transmitir o mesmo, que viver a vida, é não viver a imagem, é viver o bom e o mau que também existe, viver na abnegação dos filhos e do companheiro e em troca por vezes receber pouco, ficar-se pela expectativa. Mas os dias correm e nesses outros dias acontece o Bom, o inesperado, o pequeno gesto, a troca que sabe bem. Revejo-me muito em si. Felicidades! Merece!

Deixe um comentário

O endereço de email não será publicado.