Uma casa chamada saudade

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Onde quer que estejas, tenho a certeza de que estás a dar uma festa. Os anjos hão-de estar todos sentados à volta da tua nuvem, a ouvir-te contar histórias e a rirem-se da tua loucura. De certeza que já arranjaste forma de fumar o teu charuto e já encontraste um sitio onde dormes a tua sesta. Gosto de falar de ti e preciso de o fazer sabes? Preciso de dizer em voz alta todas as coisas de que me lembro, preciso de lhes dar vida para que elas continuem a existir e não se percam no tempo. No outro dia sonhei contigo e acordei assustada porque não me lembrava do som da tua voz. Fiquei aterrorizada a fechar os olhos e a concentrar-me mas não conseguia recordá-lo. Como é que é possível? Sei-te o cheiro, a pele, a alma…e não conseguia lembrar-me do som da tua voz. Percorri a casa da saudade a correr e a chamar por ti. Sim, a minha saudade é uma casa. Uma casa que construi, onde guardei todas as lembranças, todas as molduras, todas as canções, e onde vou passear descalça quando preciso de te “ver”. A minha saudade casa é um sitio dentro de mim que criei para te lembrar, uma espécie de altar particular onde posso chamar por ti e tu vens. Nesse dia percorri a casa da saudade à procura do som da tua voz, procurei em todo o lado e nada. Essa é que é a grande dor. Por mais que guardemos em nós todos os pormenores e todas as lembranças, o tempo trata de nos pregar rasteiras e como um ladrão a meio da noite assalta uma casa, ele trata de nos assaltar e levar-nos os nossos tesouros. De repente o tempo leva-nos bocados de nós e ficamos com aquela sensação de que nos levaram à força algo de que não estávamos prontos para abdicar.
Ainda não consigo acreditar que não chegaste a ver os meus filhos. Tenho a tua fotografia com a avó na minha mesa de cabeceira e gosto de pensar que vivo uma história de amor como a vossa. Vejo-vos abraçados e felizes e isso chega para me aquecer o coração. Ias ficar orgulhoso da minha família avô, ias adorar esta casa onde o sol bate no sofá ao final da tarde como tu gostas, ias adorar ver-me cozinhar e ver como os miúdos crescem todos os dias. Tenho tantas saudades tuas. Queria tanto que estivesses cá para ver isto tudo..

Onde quer que estejas gosto de pensar que me ouves cantar, e que me vês e me ouves falar de ti ao Santiago enquanto lhe penteio os caracóis. És o herói que escolhi para eles, foste o herói que me escolheu a mim. Fazes-me falta todos os dias.

Carolina

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1Comentários

  1. Carolina Franco says:

    Teve uma vez que não me lembrava se a minha avó paterna usava óculos ou não. Senti-me muito mal também e culpei-me por não ter estado tanto tempo com ela quando ela ainda era viva. Contudo, eu era pequena demais para ir sozinha à casa dela e o meu pai não ia lá nem me deixava ir. Custa muito essa saudade! Custa imenso!

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