O mundo do preconceito

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Nunca tive muita noção do preconceito relativamente às tatuagens. Nem às tatuagens nem a coisa nenhuma. Até uma dada altura da minha vida eu partia do princípio que as pessoas eram todas boas, e que ninguém desejava mal a ninguém nem se achava superior fosse pelas escolhas que fizeram na vida ou pela cor da pele ou religião. Não me passava pela cabeça que isso existisse sequer.
Em minha casa sempre lidamos com todas as pessoas da mesma forma, toda a gente viesse de onde viesse, era merecedora do nosso respeito. Por isso, de certa forma, eu achava que o resto do mundo era assim também. Depois fui para a escola e apercebi-me de que as coisas não eram bem assim, os homossexuais eram os paneleiros, as miúdas de vestido eram as porcas, os negros eram os pretos ou macacos ou matumbos. E eu questionava-me “Mas quem é que educou esta gente?”

A verdade é que a maioria das pessoas vive a falar em casa em frente aos filhos sem ter noção de que as coisas que diz vão condicionar a formação da sua personalidade e do seu futuro. Não podemos viver em casa a dizer “olha-me este paneleiro” a apontar para a televisão e depois pedir que uma criança de 10 anos não chame paneleiro a um homossexual e não ache que ele é de facto um ser inferior ou esquisito.

Não podemos ser hipocritas. Tipo aquelas pessoas que dizem “eu não sou racista mas não era capaz de namorar com um preto”…. well i got news for you, és racista.

Mas bem, não me dispersando do meu ponto inicial. Nunca fui muito chateada pelos outros na escola, era branquinha e loirinha e não fazia nada que chocasse os outros (digo eu) apesar de sempre ter tido “pelo na venta” como diz a minha mãe.

Isso foi mudando ao longo dos anos.

Comecei a sentir que não encaixava nos meios em que estava inserida. Não me vestia igual a eles, não falava igual a eles, não ouvia a mesma música e comecei a afastar-me gradualmente. Os meus amigos eram outros, os meus objectivos eram outros, o meu aspecto era outro. Sei que vocês estão a pensar “isso foi uma fase. Era uma questão de afirmação” mas não. Mantenho-me assim até hoje. Eu era simplesmente diferente.

Quando atingi a maioridade fiz a minha primeira tatuagem. Com autorização dos meus pais, porque apesar de já não ser necessário eu achei por bem perguntar-lhes na mesma. E depois dessa fui fazendo conforme aparecia algum desenho que fizesse sentido tatuar ou conforme fossem acontecendo coisas na minha vida que queria que ficassem gravadas.

Os meus pais perguntaram-me “porque é que fazes isso? Queres-te afirmar, queres chocar as pessoas? Estás zangada?” E eu respondi calmamente : Não. Sou feliz e realizada. Isto é simplesmente algo que gosto de fazer. Olho para isto como arte.

E desde esse dia nunca mais ninguém me perguntou nada. Deram-me espaço para existir como eu me sentisse bem e confortável.

E a verdade é que quando és aceite em casa pelas pessoas que te são mais próximas, ganhas arcabouço para lidar com os de fora. Sentes que “tens as costas quentes” no bom sentido.
Comecei por ouvir coisas como “tens noção de que vais ficar velha e isso fica horrível não tens?” Ou “não tens pena de não poder usar vestidos?” (LOL) ou a melhor de todas “e se isso da música não resultar arranjas trabalho onde toda tatuada?”

Ai. Ora bem: a questão mais engraçada para mim é que eu nunca vi ninguém com tatuagens questionar-se sobre o porquê de certas pessoas não as fazerem. Não é importante, não interessa e acima de tudo não é definidor de NADA. Vá lá, estamos em 2017. Já lá vai o tempo em que as tatuagens eram símbolo de gangs ou tempo na prisão ou seja lá o que for. Há pessoas que vêem os tatuadores como artistas (que é o meu caso) e querem levar as suas obras de arte no corpo. Ponto final. Não tem de haver mais explicação para além desta.

Nunca mais me vou esquecer do dia em que fui a um jantar todo xpto daqueles com 45 talheres diferentes em que uma senhora olhou para mim e disse “Ah que horror! Os seus pais não têm um desgosto de vê-la assim pintada?” E eu calmamente respondi “Não. Os meus pais ficam orgulhosos por terem criado uma filha que não é mal educada nem inconveniente”

E é só isto que peço e que tenho como algo fundamental : ter a capacidade de explicar aos meus filhos que toda a gente é igual. Que as pessoas são o que trazem no coração e nada mais. Quero explicar-lhes que não vivemos no mundo dos brancos ,dos pretos,dos gays das porcas dos gordos, dos tatuados e dos monhés. Vivemos no mundo das pessoas. E se soubermos ser melhores para elas, vamos ensina-las a serem melhores para os outros.

Uma vez desatei a correr para o comboio,a fugir de um rapaz que eu julguei que estava a correr atras de mim para me roubar. Quando ele finalmente me alcançou deu-me uma moeda de 20 cêntimos que eu tinha deixado cair lá atrás. Nunca mais me vou esquecer desse dia. Se nós dermos uma oportunidade de ver o mundo com outros olhos, pode ser que ele nos sorria.

Espalhem a palavra ❤

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2Comentários

  1. joana says:

    Amei 🙂

  2. Luciana Lopes says:

    Amo cada texto que escreves 💙

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