Não sei o que chamar a isto

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Já alguma vez pensaste em morrer? Já alguma vez pensaste na morte? Eu penso todos os dias. É como se vivesse à sombra num mundo onde o sol brilha para toda a gente. Não vivo no escuro, eu vejo o sol, vejo a luz, vejo as pessoas que se deitam debaixo dela. Às vezes fazem-me sorrir. Mas nunca consegui fazer parte. Foi sempre a sombra, sempre a sombra. Sempre um baú de vozes infindas que me sussurram ao ouvido que não sou bom o suficiente, que não chego. Sempre as mesmas vozes que moram na minha cabeça e jantam por lá, dormem e sonham os seus próprios sonhos.
Agora sentado neste banco dou por mim e pensar “se me levantasse e me atirasse desta linha de comboio será que alguém ia reparar?” Ia dispultar um escândalo, claro. Velhas e crianças a gritar face ao espectáculo mórbido, provavelmente ia fazer notícia nesse dia. Mas será que alguém ia reparar? Será que noutro dia qualquer depois do alvoroço ia haver alguém a viver alguma situação e a pensar “faz cá falta o João”?

É muito difícil eu fazer falta. Pouco ou nada estou em casa, pouco ou nada comunico. Saio de casa e vou ter com o meu grupo de amigos que pouco ou nada comunicam e ficamos ali encostados ao muro, em silêncio, todos cientes de que somos fugitivos de realidades particulares mas sem nunca o dizermos. Pode parecer estranho mas somos mesmo amigos dentro deste formato. Só que nenhum de nós é bom com palavras, aliás nenhum de nós tem um super talento evidente se bem que no outro dia o Vicente deixou cair o diário gráfico no jardim e eu vi os desenhos incríveis que ele lá guarda.
– o que é isto puto? Disse eu num tom que não disfarçava o meu entusiasmo
– Umas m*rdas de uns rabiscos que eu faço, nada de especial dá cá.
Eu queria-lhe dizer que os desenhos eram incríveis e que lá por uma pessoa não ser boa com palavras não quer dizer que não seja especial e não faça coisas especiais. Mas respeitei o nosso código e entreguei-lhe o caderno sem mais comentários. Um dia apareceu com um olho negro. Eu já tinha reparado que ele do nada aparecia ou a conchear ou com nódoas negras, mas ele disfarçava. Naquele dia era tão evidente que não dava para esconder
– Foi aquele sacana.
Esta frase foi suficiente. Fomos ao pé de casa dele e pegamos fogo ao carro do marido da mãe. Os dois em silêncio. Ficamos durante alguns segundos a ver as chamas crescer. Ele acendeu um cigarro e eu pensei no que aconteceria se me atirasse para cima do fogo.
Depois disso ficou a viver com a avó. Nunca a vi, nunca lá fui e ele não fala dela. Apesar de nunca mais lhe ter aparecido marca nenhuma, ficou desolado e a cara era agora de abandono. Sofrer sempre nos faz sentir vivos, agora o abandono faz-‘os sentir uma merda. Era isso que ele sentia embora como já referi mais vezes do que há paciência para ouvir nenhum de nós falasse sobre o assunto.

Eu pensava na morte, todos os dias. Não era com medo, com curiosidade. Não é que eu seja corajoso, não me considero nada dessas coisas. Na verdade até preferia ter medo da morte como toda a gente, mas essas são as pessoas que eu vejo a tomar banhos de sol e eu só tomo banhos de lua, encostado a um muro que já se conformou com a minha inércia.
Sei que dou um desgosto aos meus pais por me ter tornado este homem de nenhumas palavras. Às vezes a minha mãe abraça-me e fica encostada ao meu coração. Abraço-a de volta e sinto-a quase a chorar. Não digo nada mas é como se me amachucassem o coração.
Ela diz muitas vezes:
– uma mãe não cria um filho para o ver infeliz sabes?
– Mas eu não sou infeliz (minto)
– Se não és, finges muito bem sê-lo.
Eu suspiro como sinal de falta de paciência e puxo as orelhas a cama à espera que ela saia do meu quarto. Amo a minha mãe, amo-a mesmo. Mas sinto que a desiludido todos os dias, por isso muitas vezes prefiro nem olhar para ela. A minha irmã está a acabar o curso de gestão, é das melhores alunas da faculdade, é linda e tem tantas amigas que eu não lhes consigo decorar o nome. Os meus pais vivem muito felizes e orgulhosos dela. Não me entendam mal, não tenho um pingo de ciúmes. Eu próprio quase que sinto a felicidade na ponta da língua quando a vejo chegar a rir à gargalhada de cadernos na mão, sempre com um rabo de cavalo no alto da cabeça. Ela vive muito perto do sol, e eu gosto de ficar a admirá-la. A facilidade com que ocupa os nossos jantares de família com conversas sobre tudo e mais alguma coisa, a facilidade com que faz amigos em todo o lado. É tudo fácil para ela, até gostar de mim. Não conversamos sobre quase nada, mas às vezes ela vem-se enroscar a mim e tenta fazer perguntas sobre a minha vida, miúdas, se ando a fumar muitos charros e se preciso de dinheiro para alguma coisa. Eu nunca lhe dou informação nenhuma que valha a pena mas gosto de a ver insistir e rio-me muito com ela.
– devias rir-te ao espelho.
– Hm?
– Ficas bonito. Lembra-me quando eras miudo e o avô te atirava à piscina.

O meu avô chamava-se João, tal como eu, falava 6 línguas e já tinha estado em mais de 30 países diferentes. Às vezes sentavamo-nos ao pé da varanda e ele rodava o Globo, eu tinha de apontar ao calhas e onde quer que fosse que o medo fosse parar ele tinha sempre uma história para contar sobre esse sítio. Algumas, vejo agora, deviam ser mentira mas foram as aventuras mais verdadeiras que já vivi. Ele chamava-me de Jó porque existe uma expressão antiga que diz que quem tem muita paciência tem paciência de Jó e o meu avô diz que só eu é que tinha paciência para ouvir as suas histórias todas as noites.
Quando o alzheimer avançou e ele já se perdia ao voltar para casa, a mãe pediu-lhe que viesse para cá viver. Ele estava fraco, não dizia grande coisa. Então eu punha o Globo aos pés da sua cama rodava e com a sua mão apontava para um destino qualquer. Então eu contava-lhe as histórias do esquimó que viva num iglô com um lobo, do pescador que pescou um peixe vermelho de 10 metros, eu pensava que ele não reconhecia nada até ao dia que ele disse
– Azul Jó
– o que avô?
– O peixe não é vermelho, é azul!
Eu escondi o espanto e continuei a história. Depois um dia ele morreu. Assim. Morreu. Sei que isso me mudou para sempre, a morte apresentou-se e ficou. Nunca o disse à minha mãe mas magoou-me a velocidade com que todos ultrapassaram a morte do meu avô. Ouvia-se de toda a parte que “ele já era muito velhinho” e que “foi melhor assim” e eu não entendia como é que pode ser melhor uma pessoa deixar de existir e nunca mais poder rodar um Globo, nunca mais poder dizer que o peixe era azul e não vermelho, nunca mais me chamar pelo nome que era só nosso. Nunca mais. Fui o único que não chorou no funeral. Toda a gente chorava muito. Eu fiquei quieto, calado. Sentado na ponta do banco a olhar o seu corpo imóvel.
“E se eu me deitar ali ao lado será que me levam também?” Disse a minha voz. Todos choraram muito. E eu no silêncio tão próprio de mim, enterrei o meu avô com a mesma dor de quem enterra metade do seu próprio corpo e sai de lá a andar.
Depois disso nunca mais contei histórias. Deixei de ter histórias novas para contar e as que tinha de antigamente estavam guardadas a 7 chaves porque eram o meu bem mais precioso. Eram as poucas memórias que tinha de mim, feliz.

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