Os anjos da guarda também choram

Colocado em

Aos 22 anos a minha mãe tinha dois filhos. Aos 27 tinha 3. Hoje, com 26 e dois filhos há dias em que me sinto como uma criança a quem foi concedida uma missão de gente crescida, e quando me lembro que a minha mãe passou por isto com 22 anos só me vem uma pergunta à cabeça : “Como é que ela conseguiu?” Não sei. Não imagino sequer. Quando somos pequenos achamos sempre que os nossos pais são rochedos, pontos de força que não sentem medo de nada e que têm o poder de nos acalmar. Não me lembro de ver a minha mãe vergar, de sentir a voz dela tremer, de ver um pingo de dúvida nos seus olhos quando me olhava e dizia “vai ficar tudo bem” e eu acreditava. Juro que acreditava. Acreditava que fosse o que fosse, ia passar e ia mesmo ficar tudo bem.

Achamos que os nossos pais são de ferro, até sermos nós os pais e sentirmos o medo, o cansaço, a insegurança. Até sermos nós as pessoas que dizem “vai ficar tudo bem” mesmo quando não temos a certeza e sentimos os olhos inundarem-se de lágrimas. Gostava de não ser tão mariquinhas, gostava de ter mais força, de ser mais pratica e menos emotiva… mas não sei ser de outra forma que não esta.
Não agradeço vezes suficientes à minha mãe por tantas vezes ter cuidado de mim e por ter desempenhado tão bem este papel de anjo curandeiro que me salvava dos males da vida. Fui e sou muitas vezes ingrata com ela. Que estupidez.

A verdade é que quando era só filha achava-me uma incompreendida e agora que sou mãe, dou por mim muitas vezes a lembrar episódios da minha vida e a pensar “ela tinha toda a razão”.

Nestes últimos dias tenho andado numa correria a acabar o disco, tenho tido muito trabalho (graças a Deus) e tenho tentado dar o melhor de mim como mãe. Há dias em que me sento na cama e choro sem esforço. É um choro de cansaço, de sentir que as minhas forças se esgotaram e que não sou capaz de me levantar mais da cama. Claro que acabo por me levantar, claro que as forças renascem das cinzas sempre e todos os dias, mas há momentos em que me sinto verdadeiramente incapaz. E lá vem a mesma pergunta : “como é que a minha mãe fazia?” Não sei. Mas fazia. Nunca nos faltou nada e como vos disse, nunca a vi desistir.

Hoje com os dois miúdos doentes, a cancelar o estúdio e a tentar reorganizar a minha semana dei por mim a pensar “Se ela conseguiu, eu também consigo. E se eu tive direito a um anjo curandeiro os meus filhos também têm.”

Obrigada querida mãe. Sei que muitas vezes não o digo, mas aprendi muito contigo. Foste o mais perto que tive de ter um anjo da guarda, e preparaste-me para que eu pudesse fazer o mesmo.

Os anjos da guarda também choram, mas nunca desistem. ❤

  • Partilhar

1Comentários

  1. Mariana Dalot says:

    Tu és tão linda, sabes? Em todos os sentidos.
    É perfeitamente normal sentires-te assim e acho que uma pessoa nunca na vida irá saber a toda a hora o que fazer, é uma aprendizagem constante, mas sei que tens tudo o que é preciso para dar conta do recado e és das pessoas mais fortes que conheço!
    Um dia o Santi e o Benji vão olhar para os filhos deles e agradecer-te a ti por lhes teres dado o mundo.

Deixe um comentário

O endereço de email não será publicado.