Os anjos também usam ténis

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Um anjo tropeçou num fio de electricidade perto de minha casa. Vinha a voar cheio de pressa e não o viu, ficou todo enrolado e quando finalmente se conseguiu livrar dele teve de deixar lá os sapatos. Eu fiquei a ver da minha janela e a pensar que ele devia precisar de ajuda. Sabia que ninguém ia acreditar em mim se contasse que estava um anjo lá fora a tentar libertar-se de um fio de electricidade por isso calcei as minhas pantufas silenciosamente, vesti uma camisola e sem fazer um único som fui lá fora. Assim que o avistei disse baixinho:
– Senhor anjo, desculpe, senhor anjo? Precisa de ajuda?
Ele olhou para mim e sorriu.
– Estava cheio de pressa para ir buscar um menino que vem morar connosco e enrolei-me neste fio, já viste a minha sorte? disse o anjo.
– É um fio de electricidade. O meu pai diz que serve para dar luz à casa das pessoas.
– Pensava que o que fazia isso era o Sol e as janelas! respondeu o anjo espantado
– Mas a noite não há sol – respondi eu.
– Pois não mas a noite é para dormir. Agora vocês deitam-se cada vez mais tarde e andam-nos a trocar os horários todos. Até a lua já se queixa, não está habituada a tanta confusão. Coitadinha da lua. Já está cansada.
– A lua? A lua é sua amiga senhor anjo?
– É pois. E tua também. A lua é amiga de todos os bons corações.
– E a lua também tem sapatos?
– Não. Não precisa. O homem é que já quis pendurar lá sapatos, mas a lua não quer saber dessas coisas. Eu é que como só estou habituado a andar nas minhas nuvens ,quando venho cá abaixo venho sempre calçado. O vosso chão magoa.
– Eu também acho. E eu também gostava de andar em nuvens.
– Eu sei. – Disse o anjo calmamente, mas não percebi porquê.
– Disse que a lua é amiga dos bons corações mas o meu coração não é bom. Já pregou muitos sustos à mãe e ao pai e os médicos dizem que não tem remédio.
O único coração que não tem remédio é o que não ama. O teu coração é um bom coração, porque tem espaço para muitas coisas lá dentro. 
– Lá isso tem. A avó também lá está. No meu coração. Será que é por isso que ele é diferente do dos outros meninos? Porque tem demasiadas coisas lá dentro?
– Um coração nunca pode ter demasiadas coisas lá dentro. O coração é do tamanho do amor e quanto maior é o amor mais ele cresce. O teu coração bate mais devagar que os outros, porque não tem pressa. É um coração que não é escravo do tempo.
– Então porque é que os médicos não disseram isso ao pai e à mãe?
– Porque eles não conseguem ver. Olham para ti mas não conseguem ver.
– Será que o senhor anjo podia dizer-lhes isso?
– Todas as noites, prometo – disse o anjo.
– Senhor anjo, vai deixar aí os seus sapatos?
– Vou.
– Mas e o menino que tinha de ir buscar? Não está a sua espera?
– Já não.
Disse o anjo e sorriu.
– Não precisas de pantufas para andar nas nuvens.
O menino foi nessa noite e na manhã seguinte o pai e a mãe acordaram para ver que o seu coração tinha parado. Ficaram uns sapatos de anjo pendurados no fio que se vê da janela. À noite o anjo ainda lá vai, limpa-lhes o sal da cara e diz-lhes baixinho que está tudo bem com ele e com o seu coração onde cabem todas as coisas. Até a avó. Até o pai e a mãe. Até um anjo que não sabe pôr os sapatos.

4Comentários

  1. Mariana Dalot says:

    Uau…

  2. Andreia Cruz says:

    Carolina, linda história e feliz imaginação!!
    Que o anjo a inspire A VIDA TODA😉
    Beijinhos

  3. Alexandra says:

    Adorei! Foi tão reconfortante ler este conto… Veio no momento exacto. Lindo! Parabéns.

  4. Tica says:

    Adorei

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