Chá e Ben-u-ron

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Odeio café, mas gosto de sentir o seu sabor quando te beijo. Não é que o sabor seja diferente, é só porque enquanto te beijo quero lá saber se gosto ou não de café. Cheiras a flores e ervas depois da chuva, e eu enterro o meu nariz na tua camisa e fecho os olhos a tentar criar uma imagem, uma fotografia do teu cheiro para poder levá-lo comigo e regressar a ele quando não estás. Gosto de sentir a tua barba na ponta dos dedos quando começa a crescer e gosto da mecha de cabelo que cai teimosamente sobre a tua testa e que tu tentas arrumar atras da orelha falhando miseravelmente de todas as vezes.

“Tive sorte” penso para mim enquanto estas encostado à janela da sala ao telefone. “Tive muita sorte”.

Não sei se sabes que é assim que me sinto, muitas vezes sou vitima da intensidade com que vivo as coisas e acabo por não dizer o importante ou por perder tempo a implicar com coisas ridículas. Eu sei. E sei que tu sabes que não o faço por mal. Sou capaz de te mandar à merda num segundo e no outro estou de joelhos ao lado da cama a chorar e a sentir-me a pior pessoa do mundo por tê-lo feito.

Sou um desastre. Tu dizes que eu sou uma flor que nasceu num desastre. Apesar de não acreditar nisso, gosto te ouvir falar de mim e da esperança que depositas na hipótese de eu vir a ser uma pessoa minimamente equilibrada.

Discutimos muito. E amamo-nos muito. Discutimos com a fúria de quem se quer, não com a indiferença de quem já não se suporta. É amor, é o amor na sua pior forma mas é amor.

Não dizes muitas vezes que me amas, mas mostras. O que é uma novidade na minha vida. Sempre cresci rodeada de pessoas que diziam que me amavam e nunca estavam lá quando era preciso. Tu não és de falar dos sentimentos. Tu és da carne. É como se usasses as duas mãos para fazeres aquilo que sentes, para mostrares aquilo que as palavras quereriam dizer. Mas deixas as palavras para as canções.

Não dizes muitas vezes que me amas, mas já me escreveste muitas cartas. Calma, três. Em 5 anos. Não são muitas cartas, ou são se tivermos em conta que a maioria das pessoas passa uma vida inteira sem receber uma carta.

Eu achava que precisava de gestos grandiosos e palavras bonitas. Achava que o amor era esta coisa das surpresas, dos presentes, da expressão de afecto constante. Mas naquele dia entraste em casa, fizeste um chá, pousaste a caneca ao meu lado e trouxeste um copo de água com um Ben u Ron, a seguir tapaste-me com uma manta e deitaste-te ao meu lado no sofá. Não disseste nada. Eu estava doente e tinha estado o dia inteiro à espera do momento em que chegasses a casa. E tu chegaste e amaste-me sem dizeres nada. Fiquei encostada ao teu peito, a beber o meu chá e a ter a certeza, pela primeira vez na vida, que tinha alguém que iria cuidar de mim. E que eu iria, sempre, cuidar de ti também.

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